quarta-feira, 15 de julho de 2009

Generosidade para todos


Não é preciso ser Gandhi ou Madre Teresa para fazer o bem aos outros. As pequenas doações do dia a dia contam, e muito, para ajudar o próximo e fazer deste planeta um lugar melhor

Jeanne Callegari
Revista Vida Simples – 07/2009

O dia 22 de abril de 2009 tinha tudo para ser mais uma jornada comum na vida de Santiago Gori, taxista argentino de 49 anos. Por volta das 21h, ele pegou uma corrida de quatro quarteirões e deixou um casal de aposentados em seu destino, na cidade de La Plata, a 60 km de Buenos Aires. "Mais uma corrida ruim", pensou ele. Em seguida, pegou outra passageira, que o avisou que havia uma mala no banco de trás. Após deixá-la em seu destino, Santiago abriu a maleta e viu um monte de dinheiro - mais precisamente, 130 mil pesos, o equivalente a 72 mil reais. "Mas isso não é meu", disse. Seu próximo passo foi devolver a pequena fortuna aos verdadeiros donos, o casal que ele tinha transportado antes. Sensibilizados pela história de Santiago, que recebeu dos donos da mala, em retribuição, apenas um singelo "você é um santo", dois publicitários criaram uma campanha para arrecadar para o taxista a mesma quantia devolvida por ele. A iniciativa foi um sucesso e Santiago, o taxista generoso, levou o equivalente a 130 mil pesos.

Santiago não é um homem rico, como Bill Gates. Não fundou, como o empresário, uma associação milionária para patrocinar avanços em saúde e educação. Também não é, como Madre Teresa ou Gandhi, um líder religioso, que dedica sua vida a cuidar dos desfavorecidos. Santiago é um homem comum, humilde, que teve uma oportunidade de fazer a coisa certa e a aproveitou. Em tempos de crise mundial, em que todos se preocupam com o futuro de suas finanças, ele poderia ter ficado com o dinheiro; poderia tê-lo usado para pagar o que faltava da licença de seu táxi, ou para comprar coisas bonitas para sua esposa ou seus filhos. Mas ele foi direto até os donos entregar o que tinham perdido.

A história de Santiago prova que não é necessário ter uma fortuna, índole de santo ou algum poder para fazer o bem. Também não é preciso esperar grandes tragédias se abaterem sobre a população, como as enchentes de Santa Catarina e o furacão Katrina. Oportunidades para praticar a generosidade aparecem para todos nós, todo dia. Muitas vezes as desperdiçamos, por achar que temos quase nada a oferecer. Valorizamos e exaltamos a generosidade, mas achamos que ela é para poucos, para aquelas pessoas iluminadas que nasceram para fazer o bem. Nada poderia ser mais equivocado. Como disse o filósofo e político irlandês Edmund Burke, "ninguém comete erro maior que não fazer nada porque só pode fazer um pouco".

NOBREZA DE ALMA

Todos temos algo para dar. Pode ser dinheiro ou bens materiais, as associações mais comuns quando pensamos em generosidade. Mas também pode ser conhecimento, coisas que nós sabemos e que podem ajudar os outros. Pode ser um abraço, uma palavra de conforto, um carinho. Afinal, a generosidade é, antes de mais nada, uma inclinação do espírito para fazer o bem. A palavra vem do latim "generositas", que significa "de origem nobre". Com o tempo, passou a significar a nobreza não de nascimento, mas de espírito.

É esse espírito nobre, generoso, que encontramos em pessoas como dona Conchetta Viola. Aos 87 anos, ela é conhecida em sua vizinhança, no Rio de Janeiro, como uma pessoa de coração grande, que ajuda a quem precisa.

Seja fazendo um bolo para um vizinho, seja fazendo um mapa astral de graça, enquanto outros astrólogos cobram os olhos da cara pela leitura. "Tenho boa vontade", diz ela, quando pergunto sobre generosidade. Se alguém pede um favor, seja uma receita ou um bordado, dona Conchetta ajuda. Sempre sem cobrar nada. "Não tenho jeito de cobrar, o que vou fazer?", diz ela, rindo. "Aprendi com mamãe desde cedo a não fazer nada por interesse." Com a saúde frágil, tendo passado por algumas cirurgias, dona Conchetta diz que até precisaria de uma pensão melhor. Mas não se sente frustrada por ter ajudado a vida toda sem cobrar. "As pessoas me querem bem, tenho muitas amizades, meus filhos são muito carinhosos. A vida me retribuiu", diz.

Nos dias de hoje, parece cada vez mais difícil encontrar pessoas como dona Conchetta, capazes de se dedicar aos outros sem esperar recompensa. Mas, apesar de ter se tornado artigo raro, a generosidade foi responsável pela sobrevivência do ser humano como espécie. Lá nos primórdios, quando o homem ainda morava nas cavernas e caçava para sobreviver, era essencial que o grupo se mantivesse unido. Quem dava sorte na caçada distribuía carne para quem não tinha conseguido nada. Mais para a frente, a situação se invertia e quem tinha sido ajudado da primeira vez retribuía o favor, e assim ninguém passava fome. Os espertinhos que só queriam saber de aproveitar da caça dos outros, sem retribuir, eram logo excluídos do grupo. Esse comportamento é conhecido na sociobiologia como "altruísmo recíproco" e foi descrito pelo pesquisador americano Robert Trivers nos anos 70.

Nesse ponto, é bom fazer uma distinção entre altruísmo e generosidade. Segundo o filósofo e educador Mario Sergio Cortella, as duas virtudes são boas, mas diferentes. Agir esperando alguma espécie de retribuição seria altruísmo, representado no lema "faça aos outros o que querem que façam contigo". A generosidade seria a prática desinteressada, feita mesmo quando se sabe que não haverá recompensa, cujo mote é "faça o bem porque é bom fazer" Essa separação é útil do ponto de vista filosófico. Na prática, porém, de pouco serve. É desnecessário ficar pensando em quais foram suas motivações para ajudar o próximo. Ninguém precisa ficar se gabando porque doou dinheiro para uma entidade beneficente. Mas não é pecado se sentir bem depois de uma boa ação. Esse pensamento de que é errado sentir prazer ao doar serve para nos distanciar ainda mais da prática da generosidade. Sob esse ponto de vista, enquanto não tivermos razões 100% sinceras e desinteressadas para ajudar alguém, não vale a pena fazê-lo. E nossas razões nunca serão 100% puras, sinceras e desinteressadas, afinal, fazer o bem faz bem.

VIRTUDE CELEBRADA

Considerado o pai da filosofia e da matemática modernas, o pensador francês René Descartes também deu seus pitacos sobre a generosidade. Dela, dizia que é a consciência de ser livre e fazer bom uso dessa liberdade, ou seja, agir de forma virtuosa. Para ele, saber-se senhor dessa liberdade, e usá-la para ajudar os outros, fazia um bem danado para a pessoa, produzindo auto-estima.

"E é por gostar de si próprio que o generoso passa a estimar também o outro, reconhecendo nele o mesmo potencial para a virtude", diz o filósofo Jorge Quintas, que escreveu um trabalho acadêmico sobre a generosidade em Descartes. Um dos grandes psicanalistas da história, Donald Winnicott, foi ainda mais longe, afirmando que não conseguir doar pode fazer mal para a pessoa. Sem essa capacidade de se preocupar com o outro, ficamos desequilibrados, perdemos o sentido de viver.

"Clarice Lispector já disse: ‘Todos querem a liberdade, mas quem por ela trabalha?’", diz o cientista político Leo­nardo Sakamoto, fundador da ONG Repórter Brasil, que defende os direitos humanos. A organização ajudou a libertar trabalhadores da escravidão, denunciou a prostituição infantil e abusos cometidos contra comunidades ribeirinhas, entre outras atividades. Leonardo, que também dá aulas praticamente de graça para membros da comunidade e alunos da USP, nunca ganhou por seu trabalho na ONG. Atualmente, vive da bolsa concedida pela Ashoca, entidade que financia empreendedores sociais do mundo todo. "Levo uma vida modesta. Não estou aqui para ter o carro do ano. Nada contra quem tem, só que eu optei por uma vida menos confortável, mas que me realiza plenamente", diz ele.

Porém, a generosidade é uma virtude mais celebrada que praticada. "A generosidade só brilha, na maioria das vezes, por sua ausência", escreveu o filósofo francês Comte-Sponville no livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes.

Se a generosidade se tornou artigo raro, um pouco da culpa é da sociedade atual, calcada em valores como egoísmo e individualismo. "Pensamos muito em nosso próprio umbigo e pouco no dos outros", diz Mario Sergio Cortella. Para ele, isso é ainda mais forte nas classes mais altas. "Na favela, se desaba um barraco, a vizinha acolhe os filhos da que perdeu a casa, dizendo ‘onde comem dez comem 15’. Na classe média, às vezes as pessoas nem sabem o que fazer com os pais idosos", diz. Isso acontece porque, nas favelas, ainda impera o espírito de cooperação que guiou nossos antepassados na época das cavernas. Sem a ajuda do vizinho, não se sobrevive.

"Eu diria que o termo correto é disponível", afirma a geógrafa paulistana Flora Medeiros Lahuerta, de 26 anos. Ela é aquela pessoa a quem todos recorrem em momentos de necessidade. Seja para desabafar as desilusões amorosas, seja para dar carona ou revisar um texto acadêmico. Certa vez, uma amiga saiu do Rio de Janeiro sem roupas apropriadas para enfrentar o frio cortante que fazia em São Paulo. Do meio da estrada, ligou para Flora, que saiu de uma festa para buscá-la na rodoviária, casaquinho e cachecol na mão. O grande desafio de Flora, agora, é calibrar melhor o tempo que dedica aos outros. Afinal, de tanto querer agradar a todos, acaba se atrapalhando e assumindo tarefas que não conseguirá cumprir. "Para mim não é um esforço ajudar", diz. "Sinto satisfação ao ver que contribuí para que algo desse certo."

EDUCAR PARA DIVIDIR

Um dos mecanismos que a sociedade sempre teve para educar para o bem foram as religiões. Como sempre foram preocupadas com a moral, as crenças em um poder superior costumam estimular virtudes como a generosidade, a solidariedade, a compaixão. "Ninguém nasce generoso", diz o reverendo Alderi Sousa de Matos, professor de História da Igreja do Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, da Universidade Mackenzie. "É preciso aprender." No cristianismo, por exemplo, costumam-se contar as histórias de Cristo como inspiração para os fiéis. Uma das mais conhecidas é a do milagre da multiplicação de pães e peixes. "O que Cristo fez foi juntar o pouquinho que cada um tinha e repartir entre todos", diz Cortella. Aí está a diferença entre dividir e repartir. "Quando se divide um bolo entre dez pessoas, cada uma fica com um pedaço. Quando se reparte o bolo, cada uma fica com o que precisa", exemplifica. Para o budismo, exercitar todos os dias virtudes como a generosidade é uma forma de combater os vícios, como o egoísmo.

Como as religiões forçam o indivíduo a olhar para fora de seu próprio mundo, são uma forma de se educar para a generosidade. Mas não são as únicas. Existem práticas que podem ser feitas nas escolas, por exemplo, para estimular as crianças a ser solidárias. Um exemplo são os lanches compartilhados, em que cada aluno leva o seu e todos repartem. Existem também os jogos cooperativos, em que ninguém perde: em vez de competir, todos cooperam para a vitória do grupo.

SUBSTITUTO DO AMOR

"Em uma sociedade que pede apenas que você receba, nunca doe, a generosidade é um treino", diz a terapeuta existencial e professora da PUC-SP Dulce Critelli. Para ela, o primeiro passo para a generosidade é sacar se somos, individualmente, capazes de oferecer. "O desafio é estar atento às necessidades da vida em comum, não só às nossas." Para poder ajudar o outro, o primeiro passo é enxergá-lo, ouvi-lo, perceber suas necessidades.

Uma vez que percebemos, é hora de partir a ação. Porque ser generoso é, antes de tudo, uma escolha. É diferente, por exemplo, do amor. Quando amamos, seja um filho, seja um companheiro ou um amigo, somos capazes de grandes sacrifícios. Sem nem pensar duas vezes, uma mãe passa a noite na cabeceira do filho doente. Mas, se a criança em questão não for nosso filho, não somos capazes do mesmo gesto. Comte-Sponville pergunta: se o mendigo na rua fosse alguém que amamos, recusaríamos a ajuda que ele pede? A generosidade existe, então, como substituto do amor, para os casos em que não sentimos amor - afinal, não escolhemos senti-lo. Precisamos aprender a compartilhar com desconhecidos como fazemos com as pessoas que amamos.

Foi o que ocorreu com Sabrina Rondon Gahyva, de 24 anos, ao decidir fazer trabalho voluntário em Angola, em 2008. Jornalista, fazia trabalho parecido na periferia de Cuiabá (MT), onde mora, mas seu sonho era trabalhar com crianças carentes na África. Na internet, descobriu a ONG ADPP, com projetos no continente, e se inscreveu. Após seis meses de treinamento nos Estados Unidos, foi para Angola, onde passou nove meses.

A cidade para onde iria dar aula para crianças, Cabinda, era palco de um conflito armado, então seus planos mudaram: foi para Benguela, onde lecionou geopolítica em um curso de formação para professores da área rural. Também atuou em projetos de prevenção do HIV e em estudos sobre a inserção das mulheres no sistema educacional angolano. "Penso que o planeta é uma família só, uma corrente mesmo. E estamos aqui para trocar." Assim como os outros personagens desta reportagem, Sabrina hesita em usar o termo generosidade para falar de sua experiência. "Nisso tudo, quem mais ganhou fui eu."

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Sabrina encontrou a ONG que viabilizaria sua ida para Angola ao navegar na internet. Pois a web é uma das ferramentas que mais podem ajudar a prática da generosidade. À primeira vista, parece que as novas tecnologias contribuem para o isolamento das pessoas. No ônibus, por exemplo, é cada um no seu canto, com seu iPod, sem conversar com o vizinho. Aqui, porém, estamos falando de outra coisa: da natureza colaborativa da rede e da cultura de participação que ela cria.

Só na internet é possível um fenômeno como a Wikipédia, em que colaboradores anônimos atualizam verbetes sobre quase qualquer assunto, tornando o site uma enorme enciclopédia global. Quando cada um faz um pouco e colabora com o que sabe, todos ganham. Assim é também com os softwares livres. São programas que poderiam custar milhões, mas foram criados por programadores que os distribuem de graça porque acreditam que a informação deve circular livremente. Uma geração acostumada a compartilhar tudo tende a ser mais generosa. "A internet maximizou os incentivos sociais que se recebe ao fazer um trabalho", diz o advogado Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas e diretor do Creative Commons no Brasil. "Nessa nova visão, não importa a gratificação econômica, mas a reputação entre os pares, a capacidade de estabelecer ligações com outras pessoas, muitas delas desconhecidas."

Seja por meio da colaboração digital, seja pelas formas tradicionais de doação, o fato é que o mundo nunca precisou tanto de generosidade como nos dias de hoje. Não só com amigos, colegas, desconhecidos, mas com o próprio planeta. "Fazer o bem, hoje, é abrir mão do conforto e deixar o carro em casa de vez em quando, economizar água, reduzir o consumo", diz Dulce Critelli. Nesse sentido, a generosidade se confunde, hoje, com a responsabilidade social. "Se não aprendermos a fazer isso mais rápido do que estamos fazendo, o tecido social vai se esfacelar", diz Cortella. É preciso ser generoso com o planeta, assim como ele é conosco.

Para saber mais: Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, André Comte-Sponville, Martins Fontes VEJA TAMBÉM: Como você exercita a generosidade?

Reportagem completa de: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/atitude/conteudo_484735.shtml?func=1&pag=4&fnt=9pt

domingo, 12 de julho de 2009

Política Nacional de incentivo à leitura

Depois de lançar o Manifesto, durante a FLIP, o movimento “Por um Brasil Literário” pretende desenvolver várias ações de incentivo à leitura, sobretudo de obras literárias. Entre elas, rodas de leitura infantil em todas as escolas públicas do país e fóruns de discussão on line sobre o assunto.

Na última quinta-feira, dia 2 de julho, durante a FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty, o movimento “Por um Brasil Literário” – formado pelas instituições Associação Casa Azul, Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Instituto Ecofuturo e Instituto C&A – lançou um manifesto, de autoria do poeta e escritor Bartolomeu Campos de Queirós, que fala da importância da leitura para os brasileiros.
A iniciativa foi o primeiro passo do movimento rumo a uma política nacional de incentivo à leitura, sobretudo de obras literárias, e parece ter obtido sucesso. Na ocasião, estavam presentes diversos representantes dos órgãos públicos brasileiros – entre eles, o diretor de Livro e Leitura do Ministério da Cultura, Fernando dos Santos, a secretária Municipal de Educação do Rio de Janeiro, Cláudia Costin e o secretário Municipal de Cultura de São Paulo, Carlos Augusto Calil – que aproveitaram a oportunidade para debater ações de incentivo à leitura.
Ao final do evento, a Prefeitura de Paraty já anunciou que, a partir de agosto, haverá a implantação de rodas de leitura literária em todas as escolas municipais da cidade. A ideia do Movimento é expandir a iniciativa para todos os lugares do Brasil, uma vez que o debate que aconteceu durante a FLIP definiu, claramente, que é de extrema importância manter o público infantil e juvenil em contato contínuo com o universo literário.
Além disso, o “Por um Brasil literário” colocou no ar o site do Movimento, a fim de manter organizações e indivíduos da sociedade civil informados sobre as notícias e ações de incentivo à leitura que estão sendo promovidas no país. No portal, existem ainda as seções Fórum – aonde já estão sendo discutidas diversas questões relacionadas a leitura literária no Brasil – e Participe, em que é possível assinar ao Manifesto e saber quem mais aderiu ao documento.

De corpo e alma

Guia voluntária de corredores com deficiência, Angela atrasa o passo para fazer Jéssica acelerar
Daniela Hirsch Revista Runners World - 04/2009

"Você é a guia da Jéssica?" A pergunta feita à gaúcha Angela Braunstein, de 42 anos, deixa-a feliz. E o motivo é simples: Angela faz parte do grupo de guias voluntários que participam de corridas como acompanhantes de pessoas com necessidades especiais (PNEs). E Jéssica é uma jovem de 18 anos, com deficiência intelectual e física, que adora correr.
O primeiro contato das duas aconteceu quando Angela viu a garota participando de uma prova no centro histórico de São Paulo, em 2007. Jéssica vinha seguida por uma corredora, que a orientava. Angela se interessou pelo trabalho e procurou a Fundação Orsa, responsável pelo treinamento de Jéssica.
Pouco tempo depois, a antiga guia de Jéssica pediu a Angela que assumisse seu lugar. "Poder acompanhá-la é apaixonante. O afeto e o carinho incondicionais que a gente desenvolve me deixam realizada. Nas provas, sempre largamos no meio da multidão e em muitos pontos a Jéssica recebe o apoio de quem assiste ou passa por nós", diz Angela. "É uma menina de ouro, que me dá um orgulho enorme", completa a corredora.
A responsabilidade do guia voluntário se estende além das corridas. "Eu tenho contato com a Jéssica e com a mãe dela quase semanalmente. Criamos um vínculo muito forte." Em dias de prova, a guia chega mais cedo para ajudar a colocar o chip no tênis de Jéssica, levá-la para o ponto de largada e orientá-la sobre como proceder durante a corrida. "A gente deve cuidar para ver onde ela pisa e ficar atenta para que não seja atropelada pelos que vêm atrás e não desviam", afirma a maratonista Angela, que faz seus treinos independentemente dos dias em que Jéssica se exercita sob orientação de uma técnica da Fundação Orsa.
Existem PNEs com diferentes deficiências e ritmos de prova. Como Angela está acostumada a distâncias bem maiores que sua pupila, muitas vezes, depois de deixar Jéssica em casa, dá uma esticadinha até o parque para "soltar" a musculatura. Quando Jéssica não participa de provas, Angela acompanha outros deficientes. "Hoje, o que vale a pena na corrida para mim é correr com a Jéssica aos domingos. Entrei no projeto de corpo e alma e com muito amor."
Quer ajudar?
Cadastre-se como voluntário
O Programa Voluntário Corpore (Corredores Paulistas Reunidos) existe desde 2004. "O objetivo é a inclusão social de atletas com deficiência nas corridas de rua. Temos seis categorias que são premiadas separadamente - deficiente auditivo, visual e intelectual, cadeirante, amputados de membro inferior e outros, afirma o diretor do programa, Mario Rollo. As inscrições da PNE e do guia são cortesia da Corpore.Na semana que antecede a prova, Rollo realiza uma palestra para selecionar os guias. "O corredor deve lembrar que sua função é primordial, mas ele funciona como coadjuvante", diz.
Nem sempre o guia acompanha a mesma pessoa em todas as provas, apesar de isso ser desejável. "Quanto maior a afinidade entre eles, maior a eficiência nas provas." Hoje, o programa tem uma lista de voluntários que estão "na reserva", pois o número de PNEs está menor. "Contamos com o boca-a-boca para divulgar a iniciativa entre os atletas com deficiência. Entre os voluntários, precisamos arrumar guias que sejam rápidos para acompanhar atletas mais velozes", diz Rollo.
CALCE UM ATLETA E FORME UM CAMPEÃO
Você pode dar tênis novos ou usados (em bom estado) para os atletas com deficiência. Muitos deles têm dificuldades financeiras e um tênis adequado é fundamental para prevenir futuros problemas físicos. Confira o programa “Seu tênis não pode parar”, também da Corpore, que aceita doações e as repassa para entidades que trabalham com corredores com necessidades especiais.

Bondade na berlinda


O altruísmo e a bondade estão em baixa. Hoje, a preocupação com o bem-estar do outro é mais vista com desconfiança ou como sinal de ingenuidade do que como virtude. Essa é a conclusão a que chegaram a historiadora Barbara Taylor e o psicólogo Adam Phillips, autores do livro "On Kindness" (Sobre a Bondade, em tradução livre), publicado nos Estados Unidos recentemente e ainda sem versão em português. Com informações colhidas em estudos de teoria social, psicanálise e registros históricos, eles defendem a importância do altruísmo para a construção de uma sociedade funcional, mas também mostram quanto a noção de bondade foi distorcida e hoje é mais malvista do que entendida como algo positivo. "As pessoas não se esqueceram do valor da bondade, mas perderam a confiança na habilidade própria e na dos outros de serem bons", disse Barbara à ISTOÉ. "A bondade virou sinal de fraqueza."

Rogério Skylab, músico carioca de 40 anos, é um desses desencantados. Para ele, a bondade não se encaixa na equação que rege o funcionamento da sociedade moderna. Skylab acha que o homem bondoso acaba vivendo na sombra daqueles que atropelam dilemas éticos e morais sem peso na consciência. "Hoje quem quer se dar bem tem de se afirmar em um mundo que não acolhe a ideia da bondade desinteressada", filosofa. Para os especialistas, a opinião de pessoas como o músico é fruto da derrocada ideológica e religiosa que o mundo ocidental viveu no século XX. Segundo Ari Rehfeld, professor e supervisor da clínica de psicologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, os eventos marcantes entre os 100 anos que separam 1901 e 2001 gestaram uma legião de céticos. O processo de recrudescimento da desconfiança do homem ocidental começou com as promessas não cumpridas dos regimes políticos como o socialismo soviético, passou pela barbárie do nazismo e culminou com a criação da bomba atômica. "É um conjunto de situações que deixa uma mensagem bastante clara: desconfie do ser humano", diz Rehfeld.

Diante de grandes tragédias, como enchentes e furacões, que deixam milhares de desabrigados, o ser humano sabe ser solidário. Esta generosidade diluída não costuma ser questionada. É diferente, porém, quando a bondade tem um único rosto. Casada e mãe, Clarice Barata, 56 anos, é analista contábil do banco Itaú há 25 anos, onde também faz trabalho voluntário, e aprendeu a lidar com a desconfiança. "É comum acharem que eu quero ganhar alguma coisa ou que estou tirando vantagem quando me ofereço para ajudar", diz. Nesses anos todos de voluntariado, ela viu muita gente desistir do trabalho social por ter de se explicar, repetidamente, aos céticos em relação às boas intenções. "Mas é assim mesmo, quem é voluntário deve estar preparado para isso", afirma.

Um caso recente, porém, chamou a atenção até da experiente Clarice. A desconfiança veio de uma jovem de 15 anos que participa do programa "Clube do Livro", integrado por ela. Na iniciativa, o voluntário acompanha, por telefone, um adolescente na leitura de uma obra. "Entendo que ela já é moça, que tem de estar atenta aos assédios, mas fiquei impressionada com o cuidado dela em não se expor", conta Clarice. É difícil aceitar que vivemos em um mundo onde uma adolescente precisa desconfiar de uma senhora de 56 anos que quer ajudá-la. Nem por isso Clarice desanima. "Não me vejo completa e feliz de outra maneira", diz. Um estudo publicado no Journal of Research in Personality pelo professor Michael Steger, da Universidade de Louisville, nos Estados Unidos, no ano passado, confirma o sentimento de Clarice. Segundo ele, o comportamento altruísta tem mais impacto positivo sobre a percepção que o indivíduo tem de sua própria felicidade do que o hedonista, que busca a satisfação de prazeres exclusivamente pessoais.

O altruísmo teria nascido no tempo dos caçadores e coletores, 200 mil anos atrás, de acordo com uma pesquisa recém-publicada na revista científica Science. "O homem altruísta surge em um contexto de guerra constante por recursos fundamentais à sobrevivência", diz o economista americano Samuel Bowles, responsável pelo estudo. Grupos com indivíduos altruístas - que se solidarizavam com colegas que não eram necessariamente de suas famílias - tinham mais chances de vencer a disputa por uma zona de caça, por exemplo.

CÉTICO Para Rogério Skylab altruísmo não faz sentido em sistema que premia o egoísmo
Para Ruth Mace, antropóloga da University College London, o peso de uma descoberta como essa não pode ser minimizado. O homem altruís ta descrito pelo estudo de Bowles mostra que se preocupar com o outro e ser generoso pode ter sido uma vantagem evolutiva. "O estudo reabre o debate sobre a área de atuação da evolução", afirma Ruth. "Ela não estaria restrita aos genes de um indivíduo, mas também agiria no comportamento social de um grupo" diz. Em meio à crise de valores pela qual o mundo passa, a historiadora Barbara Taylor, coautora de "On Kindness", vê o momento como uma oportunidade para mudar. "Aos poucos as pessoas veem que deram valor demais ao individualismo e acabaram isoladas e infelizes", diz. Identificar o problema é o primeiro passo em direção à solução.

Notícia original no link:
http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2066/artigo141478-1.htm

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Um plano para avançar




Pouco se sabia sobre as escolas brasileiras até uma década atrás. Foi apenas com o surgimento de avaliações para aferir a qualidade do ensino, nos últimos anos, que as deficiências começaram a ser finalmente medidas e diagnosticadas. Ainda assim, faltava o essencial: definir aonde, afinal, se queria chegar. Acaba de ser divulgado um novo balanço da educação no país que avança justamente nesse ponto. Há três anos, um grupo de especialistas ligados à ONG Todos pela Educação, que tem o apoio de empresários e governantes, reuniu-se para estabelecer cinco metas fundamentais para a melhoria do ensino em todos os níveis.

Mais do que isso: deu prazos para o cumprimento delas, ano a ano. O próprio Ministério da Educação (MEC) e oito estados já se comprometeram a mirar nos mesmos objetivos. Algo que jamais havia ocorrido no país até então. O monitoramento constante de tais metas resultou no atual relatório. Ele mostra que o Brasil vem avançando, mas em ritmo lento (veja o quadro). Nenhum estado conseguiu cumprir todas as metas. Segundo o levantamento, apenas 10% dos estudantes brasileiros se formam tendo assimilado conceitos básicos de matemática e mais da metade dos jovens não consegue concluir o ensino médio na idade adequada, só para citar alguns dos exemplos de atraso. Conclui o presidente executivo da ONG, Mozart Neves: "Se não acelerar o ritmo, o Brasil continuará bem atrás dos outros países". As metas, que foram definidas por uma equipe de pesquisadores na área, não são exatamente conservadoras. Ao contrário. Se todas elas forem alcançadas até 2022, o Brasil terá chegado a um nível de educação semelhante ao que têm hoje alguns dos países da OCDE (organização que reúne os mais desenvolvidos). Isso significa que todas as crianças estariam na escola, teriam adquirido pelo menos o conhecimento mínimo necessário e de lá sairiam na idade esperada para ingressar numa universidade.

Soa pouco realista, mas a própria experiência mostra que esse é um cenário possível. Bons exemplos vindos de escolas públicas no país (bem raros, é verdade) reforçam a idéia de que ensino de qualidade não depende exclusivamente de mais recursos e infra-estrutura. Com as mesmas condições das outras, certas escolas já estão hoje no patamar esperado para 2022. Diz o especialista José Francisco Soares: "Com um atraso tão grande, não resta outra opção ao Brasil senão correr atrás da excelência". O detalhamento das metas por estado mostra que cumpri-las não é uma tarefa simples. Ao apontar os que mais (e os que menos) conseguiram avançar, o trabalho lança luz sobre um desafio a ser enfrentado. Enquanto os estados que partiram de um patamar mais baixo, como Paraíba e Amazonas, progrediram no ritmo previsto, os melhores em educação no país revelaram certa lentidão, caso de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. É natural que aqueles que sofrem com os piores indicadores tenham mais facilidade em evoluir.

Suas fragilidades, afinal, são tão básicas que intervenções muito simples costumam produzir algum impacto. Quando o nível é mais alto, no entanto, avançar requer um esforço maior. "O desafio deixa de ser colocar crianças na sala de aula e passa a ser a busca por um bom ensino", resume o especialista Claudio de Moura Castro. Ainda que muitos desses estados já comecem a adotar um conjunto de boas práticas em sala de aula, os resultados demoram a aparecer. O estabelecimento de metas de longo prazo, sem o abandono delas a cada troca de poder, foi a base para que países como Irlanda e Coréia do Sul dessem um salto na educação. Ao se manterem firmes num mesmo plano por décadas a fio, esses países chegaram exatamente aonde queriam. No caso brasileiro, o fato de a iniciativa ter partido de uma organização independente do governo reduz os riscos de descontinuidade, um obstáculo para a melhoria do ensino.

O atual relatório se soma às várias avaliações oficiais que vêm se encarregando de traçar um retrato preciso da sala de aula. Não há mais dúvidas quanto às deficiências. Resta, agora, o desafio de empreender um esforço contínuo para chegar ao patamar planejado, como propõe o novo relatório. Só assim o Brasil terá chances de deixar os últimos lugares nos rankings de educação.

DISTANTES DO BOM ENSINO

O balanço da educação brasileira divulgado na semana passada mostra que o país ainda precisa melhorar muito para atingir as metas traçadas para 2022

Metas pra 2022 - Todas as crianças de 4 a 17 anos na escola Situação atual - 90% das crianças estão na escola

Metas pra 2022 - Todas as crianças plenamente alfabetizadas até os 8 anos Situação atual - 88% das crianças são consideradas alfabetizadas, mas muitas delas ainda revelam dificuldades básicas de leitura e escrita

Metas pra 2022 - Todos os alunos com aprendizado adequado à sua sérieSituação atual - No fim do ciclo escolar, 10% dos alunos têm o nível de conhecimento esperado em matemática

Metas pra 2022 - Todos os jovens com o ensino médio concluído até os 19 anos Situação atual - Esse é o caso de 45% dos jovens

Metas pra 2022 - Investir 5% do PIB na educação Situação atual - O Brasil investe 3,7% do PIB

ESTADOS QUE CUMPRIRAM MAIS METAS

1º Paraíba
2º Amazonas, Maranhão e Tocantins
3º Mato Grosso

ESTADOS QUE CUMPRIRAM MENOS METAS

1º Distrito Federal e Minas Girais
2º Rondônia
3º Goiás, Rio Grande do Sul e Sergipe

Por Camila Pereira

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Reciclando



Hoje, para auxiliar na preservação do meio ambiente devemos separar, já em casa, o lixo reciclável do orgânico.

Com sorte, encontraremos contêineres no caminho para depositar os detritos. Contudo, você sabe em qual contêiner deve ser depositado os diferentes tipos de embalagens? Para não ter erro, listamos aqui suas diferentes cores e respectivas finalidades. Por meio da reciclagem, você estará ajudando nosso planeta a ser um lugar mais limpo e organizado para se habitar.



Flávia Blandy

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

O despertar da solidariedade


Colocar o funcionário frente a frente com o semelhante necessitado é importante para que ele sinta o espírito da ação”, diz Morais. “A sensação de paz, o retorno espiritual que um ato desses dá é inexplicável.”

Há, porém, uma explicação médica. A moeda de troca emitida pelo corpo humano ante o stress verdadeiro de ajudar outra pessoa são neurohormônios como serotonina e dopamina, ligados à sensação de bem-estar. “Faz bem ser bom”, diz Ricardo Monezi, psicobiólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ele, estudos apontam que o exercício da cidadania promove ainda a produção de endorfina, que possui função analgésica. Daí decorrem o alívio e a leveza relatados. “Me sinto no paraíso quando consigo ajudar alguém”, afirma Vasti Gomes Macedo, 75 anos. Ex-bóia-fria que trabalhou como babá e empregada doméstica, ela sustenta hoje o Lar Beneficente de Vasti, uma creche comunitária que cuida de 112 crianças em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Faz isso com a renda que recebe da aposentadoria (R$ 830) e doações.
Veja a matéria completa em: